BOA NOITE, VOVÔ

 



O vento frio de outono uivava pelas árvores retorcidas enquanto folhas secas dançavam na estrada poeirenta. O carro parou em frente a uma velha casa de madeira, cujas tábuas rangiam sob o peso do tempo. A pintura descascada e as janelas empoeiradas davam-lhe um aspecto sombrio, quase abandonado. Lucas, de doze anos, desceu do carro com a mochila pendurada num ombro, o olhar desconfiado fixo na casa. Ao seu lado, Clara, sua irmã de oito anos, olhava com curiosidade para a construção, os olhos brilhando com aquela inocência que ainda não conhecia o medo.

A porta da frente rangeu num som agudo, abrindo-se lentamente como se a própria casa respirasse. Na soleira, surgiu Vovô Augusto, um homem alto, de cabelos grisalhos, barba longa e um olhar distante que parecia atravessar o tempo. Sua expressão era séria, quase fria, como se a visita dos netos fosse um fardo inesperado.

— Entrem, crianças — murmurou ele entre dentes.

Lucas trocou um olhar rápido com Clara, sentindo um arrepio na espinha, mas seguiu o avô para dentro da casa.
A sala era escura, com móveis antigos cobertos de pó e um cheiro forte de mofo que impregnava o ar. Retratos em preto e branco decoravam as paredes, rostos antigos que pareciam observar cada passo dos visitantes. A lareira estava apagada, e o som do piso de madeira rangendo sob seus pés ecoava como sussurros.

Enquanto Clara explorava os objetos antigos com a curiosidade infantil, Lucas permanecia atento, os olhos analisando cada detalhe, cada sombra. Algo naquela casa o deixava inquieto.

— Boa noite, Vovô! — disse Clara, com um sorriso inocente.
O avô retribuiu o sorriso, mas havia algo de forçado nele, um brilho estranho no olhar que fez Lucas estremecer.

— Boa noite, minha querida — respondeu Augusto, a voz arrastada.
Lucas observava, sentindo que havia mais naquela casa do que o cheiro de mofo e móveis antigos.
Na madrugada, Lucas acordou com o som do vento batendo nas janelas. O frio cortava o ar, e ele vestiu um moletom antes de sair do quarto, os pés descalços fazendo pouco ruído no corredor escuro. Passando pela sala, parou abruptamente.

Vovô Augusto estava lá, sentado na poltrona de frente para a lareira apagada. Ele não se movia, não piscava. O olhar estava fixo em algo que Lucas não conseguia ver. O silêncio era pesado, quase sufocante.

Sentindo o coração acelerar, Lucas recuou lentamente, voltando para o quarto. Mas o sono não voltou.
No dia seguinte, Lucas decidiu explorar a casa. Cada passo parecia ecoar na velha construção. No final do corredor, encontrou uma porta de madeira maciça. Estava trancada, e havia marcas de arranhões perto da fechadura. A curiosidade crescia como uma sombra dentro dele.

Na cozinha, encontrou Vovô Augusto cortando legumes com movimentos metódicos, quase mecânicos.

Lucas aproximou-se, esbanjando sua curiosidade e receio.

— O que tem naquela porta, Vovô?

Augusto não levantou os olhos. Sua voz, fria como o vento lá fora, cortou o ar.

— Algumas portas não devem ser abertas, menino.

O olhar que ele lançou a seguir era tão penetrante que fez Lucas recuar, mas não o suficiente para afastar a curiosidade que agora queimava em seu peito.
Naquela noite, Lucas encontrou um álbum de fotos antigo em uma das estantes da sala. Sentou-se no sofá, folheando as páginas amareladas. As fotografias mostravam Augusto jovem, ao lado de outro homem idêntico a ele. As semelhanças eram perturbadoras.

Clara apareceu, sentando-se ao seu lado.

— Quem é esse? — perguntou, apontando para o homem na foto.

Lucas virou a fotografia, lendo o que estava escrito no verso.

— "Augusto e Henrique, 1952."

Franziu a testa, o desconforto crescendo como uma sombra.
No dia seguinte, durante o café da manhã, Lucas decidiu confrontar o avô.

— Vovô... Quem é Henrique? — perguntou, encarando Augusto.

O velho parou por um instante, a faca pressionada contra a tábua de cortar. O silêncio que se seguiu foi mais assustador do que qualquer resposta. Quando ele finalmente falou, sua voz estava carregada de raiva.

— Nunca mexa nas minhas coisas! — rosnou, antes de sair furioso da cozinha.

Naquela noite, enquanto dormia, Clara murmurou o nome "Henrique" repetidamente. O som gelou o sangue de Lucas, que agora sabia que precisava de respostas.
Mais tarde, Lucas aproveitou que o seu avô saiu para colher lenha e começou a fazer uma busca minuciosa pela casa. Não sabia de fato o que estava procurando, mas revirou cada objeto da casa, silenciosamente e com cautela para que nada quebre.

Após insistir ainda mais em suas buscas, ele encontrou uma chave escondida atrás de um quadro na sala. O metal frio parecia pulsar em sua mão. Acordou Clara, e juntos desceram até o porão.

A porta rangeu ao ser aberta, revelando um espaço frio e escuro, o ar impregnado com o cheiro insuportável de mofo e algo mais... Algo podre. Lucas acendeu a lanterna, iluminando o ambiente.

Havia uma cadeira com correntes enferrujadas no centro do cômodo. No canto, uma mesa com velas derretidas e uma foto antiga.

— Essa é a mesma foto, não é? — perguntou Clara.

Lucas virou-a, lendo o verso com a voz tremendo.

— "Augusto e Henrique, 1952.". Sim... Mas por que ela está aqui?

Um calafrio percorreu sua espinha. Algo estava profundamente errado naquela casa.
Na madrugada seguinte, Lucas acordou com o som de passos pesados vindo do porão. Verificou o quarto de Clara, que dormia profundamente, e, hesitante, desceu as escadas.

A porta do porão estava aberta. No interior, Vovô Augusto estava de pé diante de um homem idêntico a ele, com olhos negros e pele pálida, acorrentado à cadeira.

— Você não deveria estar aqui, Lucas — disse Augusto, sem se virar.

— O que... O que ele é? — gaguejou Lucas.

Augusto suspirou, a voz carregada de algo entre tristeza e resignação.

— Esse é Henrique, meu irmão gêmeo. Ele morreu... Mas nem todos podem descansar em paz.

Revelou que, após a morte de Henrique, fizera um pacto obscuro na tentativa de trazê-lo de volta. Mas o que retornou não era mais seu irmão.

Lucas fica intacto na escada do porão, sua respiração suspensa e seus olhos umedecendo-se em sintonia com as batidas aceleradas de seu coração.
Na manhã seguinte, Lucas acordou com um silêncio sepulcral pairando na casa. O sol mal atravessava as cortinas empoeiradas, e o ar estava pesado, como se a própria casa prendesse a respiração.

Percebeu que Vovô Augusto não estava mais na poltrona. O pressentimento apertou o peito de Lucas. Correu até o porão.

O espaço estava vazio. A cadeira onde Henrique estava acorrentado estava vazia, as correntes quebradas espalhadas pelo chão de terra batida. O cheiro de mofo agora se misturava com algo ainda mais fétido, algo impossível de identificar.

Subiu correndo de volta para a cozinha.

Sobre a mesa, havia uma nova fotografia. Lucas, trêmulo, aproximou-se. Na foto, Augusto, Henrique... E ele próprio, com o mesmo olhar distante e vazio dos outros dois.

Virou a foto, o coração martelando no peito.

"Família para sempre. 2025."

O choque o paralisou. Foi então que percebeu um movimento no canto da cozinha. Virou-se lentamente.

Clara estava ali, parada, observando-o com olhos negros como breu. Um sorriso frio e perturbador formava-se em seus lábios.

— Boa noite, Vovô — sussurrou ela, a voz distorcida e carregada de algo inumano.

Antes que Lucas pudesse reagir, Clara desapareceu pela porta dos fundos, deixando a casa mergulhada em um silêncio ainda mais profundo.

Lucas ficou parado, a fotografia tremendo em suas mãos. O reflexo na vidraça mostrou seus próprios olhos começando a escurecer.


FIM.

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