A FÚRIA DOS VENTOS
ATO I
O novo lar
O sol daquela manhã parecia mais bonito do que em qualquer outro dia.
A estrada de terra ainda guardava as marcas da chuva da semana anterior, formando pequenas poças pelo caminho. O cheiro de barro molhado se misturava ao perfume do mato enquanto um homem caminhava lentamente segurando a mão de um menino de cinco anos.
Com a outra mão, mantinha delicadamente os olhos da criança cobertos.
— Papai... Assim eu vou acabar tropeçando...
O homem sorriu.
— Confia em mim, Miguel. Falta bem pouquinho.
O garoto tentou afastar a mão do pai, curioso.
— É um presente?
— Melhor do que isso.
Continuaram andando mais alguns passos.
Ao longe, uma mulher observava a cena com um sorriso que denunciava a ansiedade. Ao seu lado, uma casa simples aguardava silenciosa, como se também estivesse esperando aquele momento.
As paredes ainda exibiam o reboco fresco. O quintal era apenas um pedaço de terra cercado por algumas estacas de madeira. Não havia jardim, nem calçada, muito menos pintura nas paredes externas.
Mas era uma casa.
A casa deles.
O homem parou.
Ajoelhou-se diante do menino.
— Agora pode abrir os olhos.
Miguel piscou algumas vezes até a claridade desaparecer.
Então viu.
A pequena casa de três cômodos.
Por alguns segundos ficou completamente imóvel.
— É...
Olhou para o pai.
Depois para a mãe.
Voltou a olhar para a casa.
Seus olhos começaram a brilhar.
— Essa é a minha casinha?
A mãe respondeu:
— É sim, filho. É a tua casinha.
Miguel saiu correndo em direção à porta.
Entrou.
Saiu.
Entrou outra vez.
Abriu os braços.
— Ela é gigante!
Os pais riram.
A casa mal passava de três pequenos cômodos, mas, para uma criança que jamais tivera um espaço para chamar de seu, aquele lugar parecia um castelo.
Miguel voltou correndo e abraçou primeiro o pai.
Depois a mãe.
Um abraço apertado, daqueles que nenhuma fotografia conseguiria registrar por inteiro.
Naquele instante, não havia luxo.
Não havia dinheiro.
Não havia preocupação.
Existia apenas felicidade.
Pouco depois, os primeiros familiares começaram a chegar.
O avô foi o primeiro a atravessar o pequeno portão improvisado. Ele chegou com vários sacos e metais de ferro velho.
— Então foi aqui que vocês resolveram morar?
Miguel correu até ele.
— Vovô! Vovô!
Antes que o homem pudesse responder, o garoto já o puxava pela mão para dentro da casa.
Logo atrás veio a avó, carregando uma pequena gaiola coberta por um pano.
— Oi, Miguel. Não vai cumprimentar sua avó?
— Oi, vovó! O que é isso?
— Cuidado que é o Frederico que tá aqui... Ele ainda está assustado da viagem.
Miguel levantou o tecido com cuidado.
Lá dentro, um pequeno periquito verde inclinou a cabeça e soltou um canto tímido.
— Oi, Frederico...
O passarinho respondeu com outro assobio.
A avó sorriu.
— Acho que ele gostou da casa nova.
Por último, chegou a irmã da mãe de Miguel.
Vestia calça jeans larga, camiseta escura e botas gastas. O cabelo raspado chamava atenção de quem ainda não a conhecia, mas para Miguel aquilo nunca fez diferença.
Ela era apenas sua tia.
E era divertida.
Muito divertida.
Assim que entrou, colocou um violão sobre uma cadeira.
— Então... Quem vai estrear a acústica dessa casa?
O pai sorriu.
— Achei que você nunca perguntaria.
Minutos depois, os dois já afinavam os instrumentos na pequena sala.
As primeiras notas encheram a casa antes mesmo que os móveis encontrassem seus lugares.
A mãe, professora da escola municipal, organizava caixas de livros enquanto cantarolava discretamente acompanhando a melodia.
O avô batucava sobre a mesa.
A avó preparava café.
Miguel corria de um lado para outro, inventando aventuras em cada canto daquele novo universo. Miguel tinha um ursinho de pelúcia que, por algum motivo, havia apelidado de ‘Huxon’. Certamente tinha visto algum filme americano com os pais no qual escutara esse nome ou expressão e simplesmente decidiu dar esse nome ao ursinho.
O avô trouxe o cão Duque.
Ele era de porte médio/grande, branco com preto.
Miguel brincava com ele no quintal, jogava bola. Apesar de o cão se dar bem com todo mundo, ele tinha mais proximidade com o avô e com o próprio Miguel.
Assim como Frederico era o pet de criação da avó. Afinal de contas, era possivelmente o periquito mais velho do planeta Terra, com incríveis 17 anos de vida.
Alguns dias se passaram...
O pai de Miguel havia comprado uma maquininha de cortar cabelo. Ele chamou Miguel em uma certa manhã de sábado, e o colocou na cadeira para aparar o seu cabelo castanho cheio de cachos.
— Bora cortar essa cabeleira?
Miguel sorriu. Enquanto sorria, os tufos de cabelo iam caindo pelo chão.
Miguel parecia não se importar de estar tendo o seu cabelo aparado.
A casa deles ainda era simples.
As paredes estavam nuas.
Faltavam móveis.
Faltavam cortinas.
Faltava muita coisa.
O telhado ainda estava sem acabamento.
Mas sobrava aquilo que realmente transformava uma construção em um lar.
Vida.
Os meses passaram.
A casa ganhou algumas melhorias.
Uma estante improvisada.
Uma mesa de madeira.
Novas telhas.
Algumas plantas no quintal.
A rotina também encontrou seu lugar.
A mãe saía cedo para dar aula.
O pai passava boa parte do dia trabalhando para terminar os últimos detalhes da construção.
À noite, quase sempre havia música.
O velho violão nunca permanecia muito tempo guardado.
Miguel já conhecia de cor algumas canções que enchiam a casa durante os encontros da família.
Era impossível imaginar que aquele lugar pudesse um dia deixar de existir.
Outubro de 1995.
O domingo caminhava lentamente para o fim.
Na pequena área da casa, Miguel permanecia agachado diante da gaiola de Frederico.
— Hoje vai ter louvor de novo, sabia?
O periquito inclinou a cabeça.
— Você gosta quando meu pai toca violão?
Outro assobio.
Miguel sorriu.
Dentro da casa, vozes se misturavam ao som de pratos sendo organizados.
A tia afinava o violão.
A mãe terminava os últimos preparativos para servir à família.
O avô conversava com o pai na sala.
A avó organizava a mesa.
Tudo parecia exatamente como deveria ser.
Foi então que Frederico mudou de comportamento.
O pequeno pássaro começou a bater as asas contra a gaiola de maneira incomum.
Um assobio agudo cortou o silêncio.
Depois outro.
E mais outro.
Miguel franziu a testa.
— O que foi, Frederico?
O periquito continuava agitado.
Como se tentasse avisar alguma coisa.
O menino ergueu lentamente os olhos.
O céu havia mudado.
Nuvens escuras avançavam depressa, engolindo o azul da tarde.
O vento, até então suave, fez as primeiras folhas secas deslizarem pelo quintal.
Miguel não sabia explicar o motivo.
Mas um aperto estranho tomou conta do peito.
Permaneceu olhando para o horizonte enquanto, atrás dele, as vozes alegres de sua família enchiam a pequena casa.
Pela primeira vez desde que chegaram ali, aquele lugar deixou de parecer completamente seguro.
E, sem que ninguém imaginasse, o vento já estava a caminho.
— Que foi, Frederico?
Frederico se encolheu no canto da gaiola e começou a tremer.
Duque entrou pra sua casinha e ficou deitadinho no canto.
O avô saiu para a área e sorriu ao ver o pequeno Frederico encolhido na gaiola.
— Também não gosta de chuva, amiguinho? Então tá bom, vamos dar um jeito nisso. Vem, Miguel!
Pegou a gaiola e voltou para dentro junto com Miguel.
Fechou cuidadosamente a porta.
Colocou o pássaro próximo à parede da cozinha.
Nem percebeu que ele continuava tremendo.
Pouco depois, todos já estavam reunidos ao redor da pequena mesa.
A chuva agora caía mais forte sobre o telhado.
As gotas produziam um som constante, quase hipnotizante.
A tia fazia Miguel rir contando histórias engraçadas da infância da mãe e pegando seus bonecos pra fazer mini-teatro com eles.
O pai implicava com o sogro.
O avô respondia na mesma moeda.
A avó fingia brigar com os dois.
A mãe apenas ria enquanto servia mais um pouco de arroz.
Por alguns minutos...
O mundo parecia perfeito.
Quando terminaram de jantar, Miguel sentou-se no colchão encostado à parede.
Abraçou forte seu urso de pelúcia.
O trovão seguinte foi ainda mais alto.
Ele apertou o urso contra o peito.
A mãe percebeu.
Sentou-se ao seu lado.
Passou a mão em seus cabelos.
— Está tudo bem, filho?
Miguel hesitou.
Olhou para a janela.
Depois para ela.
— Tô...
Mentiu.
Ela sorriu.
— Está com medo da chuva?
Ele fez um pequeno gesto afirmativo.
A mãe o abraçou.
— Não precisa ficar com medo. Estamos todos aqui. Aqui dentro estamos seguros.
Miguel tentou acreditar.
Mas o aperto em seu peito só aumentava.
As lâmpadas da casa piscaram.
Uma.
Duas.
Três vezes.
— Ih... Lá vem a energia... Vai acabar...
O pai deu uma risada.
— Se acabar, a gente canta no escuro mesmo — disse a tia.
Todos riram.
Miguel não.
Olhava fixamente para a lâmpada.
Ela continuava tremendo.
Como se respirasse.
Alguns minutos depois, o pai pegou o violão.
A tia fez o mesmo.
As primeiras notas preencheram a pequena sala.
— Vamos começar?
A família se reuniu naturalmente.
A avó fechou os olhos.
O avô juntou as mãos.
A mãe começou a cantar.
Miguel tentou acompanhar.
Sua voz ainda era tímida.
Mas fazia o possível para seguir o ritmo.
Do lado de fora...
O vento aumentava.
As árvores do quintal começaram a se curvar.
As folhas secas cruzavam o terreno como pequenos redemoinhos.
A chuva batia cada vez mais forte contra as paredes.
Dentro da casa...
Os louvores continuavam.
— Somos corpos assim bem ajustados, totalmente ligados, unidos, vivendo em amor, uma família vivendo um compromisso no grande amor de Cristo. Eu preciso de ti, querido irmão, precioso es para mim... Querido irmão.
O pai sorria enquanto dedilhava o violão.
A tia acompanhava perfeitamente cada acorde.
As vozes enchiam aquele pequeno lar de paz.
Foi então que Miguel percebeu uma gota escorrendo pela parede.
Depois outra.
Um fino filete de água começou a descer lentamente perto da porta.
Ele observou.
Ninguém parecia notar.
Continuaram cantando.
Mais uma gota desceu.
Outra.
Outra.
O filete virou uma pequena corrente.
Miguel levantou devagar.
Aproximou-se.
A casa naquele momento ficou sem som, pois as batidas do coração de Miguel eram o som mais alto daquele ambiente.
Tocou a parede.
Ela estava completamente encharcada.
— Mamãe...
Sua voz se perdeu entre o som dos violões.
O vento rugiu.
As telhas estremeceram.
Um rangido ecoou sobre suas cabeças.
Todos continuaram cantando.
Miguel ergueu lentamente os olhos.
O teto parecia respirar.
As telhas vibravam.
Os pregos gemiam.
O vento encontrou uma pequena abertura.
Um assobio agudo atravessou a casa.
O menino ficou imóvel.
Um prego saltou.
Depois outro.
Mais um.
O som dos louvores continuava.
Continuava,
Continuava,
Até o inesperado acontecer.
— MAMÃE!!!
O grito de Miguel ecoou pela casa e o telhado inteiro foi arrancado quase de uma vez.
As telhas dobraram sobre si mesmas antes de desaparecerem na escuridão.
A chuva despencou dentro da casa como uma cachoeira.
Miguel gritou novamente.
O violão escapou das mãos do pai.
A corrente de vento o lançou contra a parede e, antes que alguém pudesse alcançá-lo, o instrumento foi sugado pela abertura do telhado, desaparecendo na tempestade. A tia tentou segurá-lo, mas já era tarde.
— Meu Deus! O que tá acontecendo?
A avó correu desesperada até a gaiola.
Frederico batia as asas freneticamente.
Duque começou a latir sem parar.
O vento atravessava a casa como um animal enfurecido.
A água invadia todos os cômodos.
A pequena sala transformava-se rapidamente em um rio.
— Todo mundo pra perto de mim! — gritou o pai.
A mãe correu em direção a Miguel.
Antes que conseguisse alcançá-lo, o menino escorregou.
O chão desapareceu sob seus pés.
A corrente de água o arrastou por alguns metros.
O urso de pelúcia escapou de seus braços.
Por um segundo...
Miguel afundou.
A água cobriu completamente seu rosto.
Ele abriu os olhos.
Só via lama.
Escuridão.
Bolhas.
Até sentir uma mão segurando seu braço.
A mãe.
Ela o puxou para junto do peito.
— Miguel, eu tô aqui, filho! Eu tô aqui!
Pedaços do reboco começaram a cair do teto.
Uma parede rachou.
O avô ajudou a esposa a subir sobre a mesa de madeira.
A estrutura rangia sob o peso dos dois idosos.
O avô decidiu descer. A avó se desesperou.
— O que você vai fazer?
— Não posso deixar o Duque.
— Não, você vai ser arrastado!
A avó desceu e ajudou o marido a passar pela correnteza.
Ao chegarem perto, a casinha de Duque foi arrancada pelo vendaval. O pobre cão quase foi levado junto, mas a tia conseguiu chegar a tempo e abraçou Duque com toda a força.
— Pai, mãe! Tirem o Duque daqui! Eu vou ajudar a Dinda.
A casa inteira estremecia.
Como se pudesse desabar a qualquer instante.
Então um estrondo ainda maior fez todos olharem para a porta principal.
Ela balançava.
Violentamente.
A cada rajada.
A madeira arqueava para dentro.
Os parafusos começavam a ceder.
O pai percebeu imediatamente.
Se aquela porta fosse arrancada...
O vento invadiria a casa por completo.
Sem pensar duas vezes, correu.
— Edilson! Não! — gritou a mãe. — Volta!
Ele não respondeu.
Apenas segurou a maçaneta com as duas mãos.
— Vão pelos fundos! Eu seguro a porta!
A mãe segurava Miguel no colo, enquanto tentava decidir o que fazer.
A tia chegou e foi até ela.
— A gente tem que sair daqui!
— Você precisa ir com o Miguel.
— O quê? Tá louca? Vem logo que essa casa tá quase desabando.
— Eu não posso deixar ele segurando aquela porta sozinho.
A tia hesitou. Depois pegou Miguel pelo braço.
— Miguel, vai com tua tia, eu vou ajudar o papai.
— Não, mãe! Deixa eu ir com você.
— Vem, Miguel!
Miguel viu o urso caído.
— Tia, o Huxon!
— Tá bom, eu pego pra você!
A tia rapidamente pegou o urso.
Eles tentaram sair pelos fundos e outra rajada atingiu a porta.
Ela estalou.
A madeira gemeu.
Os parafusos começaram a saltar um a um.
— Sai daí, por favor!! — implorou a mãe, com lágrimas misturadas à chuva.
— NÃO! Eu disse que eu iria proteger vocês e é o que eu vou fazer!
O pai cerrou os dentes.
Tentava resistir.
Mas não era uma luta entre um homem e uma porta.
Era uma luta entre um homem e a própria natureza.
O vento rugiu com uma violência inimaginável.
A porta inteira explodiu para dentro da casa.
A madeira atingiu o pai em cheio.
Seu corpo foi arremessado para trás.
A cabeça bateu violentamente contra o chão.
Por um instante...
Ninguém conseguiu se mover.
A água avançava.
A chuva caía sem piedade.
Um fio vermelho começou a se espalhar pelo piso alagado.
Misturando-se lentamente à água.
Miguel olhou para trás e viu, de longe, o pai caído enquanto o sangue se misturava à correnteza.
Seus olhos se encheram de lágrimas.
Então um grito atravessou a tempestade.
— PAAAAAAAI!
ATO II
O que o vento não conseguiu levar
Miguel mal conseguia enxergar através da chuva.
As lágrimas se misturavam à água que escorria pelo seu rosto.
— Pai!
Sua voz desapareceu no rugido do vento.
Na casa, a mãe correu até o marido.
— Olha pra mim! Você está me ouvindo? Eu vou te ajudar!
Ele permaneceu imóvel durante alguns segundos.
Então tossiu.
Levou lentamente uma das mãos à cabeça.
Quando a afastou, seus dedos estavam cobertos de sangue.
A mulher sentiu o coração apertar.
— Meu Deus, a gente precisa sair daqui...
Do outro lado da casa, uma nova rajada atravessou o espaço onde antes existia o telhado.
As paredes estremeceram outra vez.
O avô percebeu que permanecer ali significava esperar pelo pior.
A avó pegou a gaiola com Frederico.
— Vem, meu filho...
Abraçou a gaiola contra o peito.
O avô segurou Duque no colo.
A chuva não parava de cair.
Do lado de fora, a casa da vizinha permanecia de pé.
A tia viu e arrastou Miguel.
— Vamos, Miguel!
— Eu não quero!
A tia o tomou nos braços.
Miguel começou a se debater.
— Não! Me solta! Mãe! Pai!
A mulher apertou o sobrinho contra o peito.
— Vai ficar tudo bem.
Miguel gritava.
Estendia os braços na direção dos pais.
A chuva batia em seu rosto.
O vento parecia querer arrancá-lo do colo da tia.
— Mããããe! Paaaaaai!
Mas a distância aumentava a cada passo.
Atravessar aqueles poucos metros parecia impossível.
O vento empurrava tudo para trás.
A lama transformava o chão em uma armadilha.
O avô caminhava na frente, carregando Duque junto ao peito. A avó protegia a gaiola de Frederico com os braços. O cachorro tremia violentamente.
A tia fazia força para manter Miguel protegido.
O menino escondia o rosto em seu ombro.
Ainda chorava.
Quando finalmente alcançaram a pequena área coberta da vizinha, todos respiraram aliviados.
Pela primeira vez desde o início da tempestade...
Estavam parcialmente protegidos.
A tia colocou Miguel no chão.
Ele olhou imediatamente para a própria casa.
Ou para o que restava dela.
As paredes ainda resistiam.
Mas o telhado havia desaparecido.
A chuva atravessava todos os cômodos.
Os poucos móveis que conseguiam ser vistos eram empurrados pela água.
A voz de Miguel saía entrecortada pelo choro.
Ele olhou para os escombros e deu alguns passos, querendo voltar para a casa.
— Miguel, a gente precisa sair daqui.
— Minha casinha... Destruíram minha casinha...
A tia passou a mão nas costas de Miguel e o abraçou. O choro de ambos tomou conta.
Do outro lado do quintal...
A mãe ainda tentava levantar o marido.
Ele apoiou um dos joelhos no chão.
Respirava com dificuldade.
A camisa branca estava completamente encharcada de sangue.
Ela segurou seu rosto.
— Nós precisamos sair.
Ele tentou dar um passo.
Cambaleou.
Foi amparado por ela.
Os dois caminharam em direção à porta destruída.
Foi então que um estalo seco ecoou pela casa.
Os fios elétricos presos ao teto cederam.
Caíram violentamente diante da única saída.
Faíscas iluminaram a sala.
Um chiado assustador tomou conta do ambiente.
A água que cobria o chão aproximava-se lentamente dos cabos energizados.
A mãe congelou.
Sabia exatamente o que poderia acontecer.
— Cuidado com os fios!
Olhou ao redor desesperadamente.
Precisava afastar aqueles fios.
Mas tudo parecia ter sido levado pelo vento.
Foi então que avistou uma velha vassoura caída próxima à parede, presa atrás da estante e que, por um milagre, não foi levada pelo vento.
Correu até ela.
Quebrou rapidamente a parte de plástico.
Ficou apenas com o cabo de madeira.
Respirou fundo.
Com cuidado, empurrou um dos fios para longe.
Uma faísca explodiu.
Depois outra.
O coração parecia querer sair pela boca.
Mais um movimento.
Os cabos deslizaram alguns centímetros.
O suficiente.
Ela segurou firme a mão do marido.
— Agora!
Os dois correram.
Mal haviam atravessado o antigo batente da porta quando um clarão iluminou todo o quintal.
A corrente elétrica encontrou a água.
Um estampido seco fez o chão tremer.
Nenhum dos dois olhou para trás.
Só corriam.
Corriam como nunca haviam corrido na vida.
Faltavam poucos metros.
Miguel avistou os pais.
— Mamãe! Papai!
A tia sorriu aliviada.
— Eles conseguiram!
A mãe também viu o filho.
Apertou ainda mais o braço do marido.
Estavam quase chegando.
Foi então...
Que um estrondo ensurdecedor cortou a tempestade.
Todos olharam para cima.
A enorme caixa d'água do terreno vizinho desprendeu-se da estrutura.
Por um instante, pareceu flutuar.
Depois despencou violentamente sobre o quintal.
A água explodiu em todas as direções.
Pedaços de concreto espalharam-se pelo chão.
O impacto fez todos se abaixarem instintivamente.
Miguel gritou.
A tia o segurou no colo e correu para a parte segura da casa vizinha.
A água atingiu e derrubou quase toda a família: o pai, a mãe, o avô, a avó.
Somente Miguel e sua tia permaneceram de pé.
Enquanto, do lado de fora, o vento continuava rugindo como se ainda não tivesse terminado o seu trabalho.
ATO III
Depois do vento
Ninguém sabia ao certo quanto tempo havia passado.
Minutos.
Talvez horas.
A chuva diminuía lentamente.
O rugido do vento, antes ensurdecedor, transformou-se em um sopro distante.
Até desaparecer.
O silêncio que veio depois parecia ainda mais assustador.
Era noite. Pessoas de uma igreja vinham com velas e lampiões.
Miguel chegava abraçado à sua tia e com o seu urso de pelúcia.
Quando seus olhos encontraram a casa...
Seu coração apertou novamente.
Ela ainda estava ali.
Mas já não era a mesma.
O telhado havia desaparecido por completo.
Parte das paredes desabara.
Os poucos móveis restantes estavam cobertos de lama.
O colchão onde costumava dormir permanecia preso entre os escombros.
O pequeno armário de madeira jazia tombado sobre o chão.
Pedaços de telha, concreto e madeira estavam espalhados por toda parte.
Não existia mais sala.
Não existia mais cozinha.
Não existiam mais brinquedos.
Existiam apenas lembranças misturadas aos destroços.
Miguel apertou ainda mais o urso.
Dessa vez...
Não conseguiu dizer nada.
O pastor fez uma breve oração e os fiéis começaram a cantar. Era o que poderíamos chamar de um louvor quase fúnebre depois de tudo o que aconteceu.
Mais perto quero estar, meu Deus, de Ti
Ainda que seja a dor que me una a Ti
Sempre hei de suplicar
Mais perto quero estar
Mais perto quero estar
Meu Deus, de Ti
Andando triste aqui, na solidão
Paz e descanso a mim Teus braços dão
Nas trevas, vou sonhar
Mais perto quero estar
Mais perto quero estar
Meu Deus, de Ti
Minh'alma cantará a Ti, Senhor
E em Betel alçará padrão de amor
Eu sempre hei de rogar
Mais perto quero estar
Mais perto quero estar
Meu Deus, de Ti.
As velas tremulavam ao sabor do vento que agora era apenas uma brisa.
Miguel olhava para a casa destruída.
Enquanto o louvor ecoava entre os destroços.
Naquela noite, a tempestade levou o telhado.
Levou as paredes.
Levou os móveis.
Levou os poucos bens materiais que aquela família havia conquistado.
O restante disso...
A vida levaria aos poucos.
EPÍLOGO
Trinta anos depois...
O cemitério permanecia silencioso.
Miguel caminhava devagar entre as alamedas.
Agora adulto, vestia uma camisa xadrez azul, calça jeans preta e uma boina também preta. Adotara barba e bigode e... já não tinha mais cabelo. A boina disfarçava as entradas da calvície.
Lembranças de seus cachos caindo pelo chão atravessaram a sua mente.
Nas mãos, um pequeno buquê de flores brancas.
Parou diante de três lápides.
Ajoelhou-se.
Retirou algumas folhas secas que o vento havia deixado sobre a pedra.
Colocou as flores com cuidado.
Sorriu.
Um sorriso pequeno.
Daqueles que só existem quando a saudade aprende a conviver com o tempo.
Seus olhos percorreram cada nome gravado.
A avó.
O avô.
A mãe.
Três pessoas que, durante muitos anos, foram o significado da palavra lar.
Miguel permaneceu em silêncio.
Tirou o celular do bolso. Abriu.
Viu a foto de seu pai com a perna enfaixada e presa a uma gaiola ortopédica.
Guardou o celular.
Olhou novamente para as lápides e suspirou.
Como se ainda esperasse ouvir o som do violão.
Ou a voz da avó chamando para o jantar.
Ou o avô contando alguma história.
Ou a mãe perguntando se estava tudo bem.
Ou o assobio do Frederico.
Ou o Duque aparecendo de repente roçando o focinho em seu rosto.
O vento soprou suavemente entre as árvores.
Dessa vez...
Não havia medo.
Apenas lembranças.
Miguel respirou fundo.
Olhou mais uma vez para as três lápides.
E disse quase num sussurro:
— Naquela noite eu pensei que tinha enfrentado o maior vendaval da minha vida...
Fez uma breve pausa.
Os olhos marejaram.
— Mal sabia que a vida ainda preparava ventos muito mais fortes.
Permaneceu alguns segundos ali.
Depois passou a mão sobre a lápide da mãe.
Como quem se despede de alguém que ainda continua presente.
Ao longe, a melodia de One More Light parecia acompanhar seus pensamentos.
Miguel sorriu outra vez.
Dessa vez com serenidade.
Virou-se.
Começou a caminhar em direção ao portão do cemitério.
Foi então que pequenas gotas começaram a cair.
Uma garoa fina.
Iluminada pelo sol da tarde.
Miguel ergueu o rosto.
Deixou que a chuva tocasse sua pele.
Pela primeira vez em muitos anos...
Ela já não parecia uma inimiga.
Era apenas chuva.
Ao chegar ao portão, um carro de aplicativo encostou.
O motorista abaixou o vidro.
— Miguel?
— Sim, sou eu mesmo.
Entrou no banco traseiro.
O carro deixou o cemitério lentamente.
Durante todo o caminho, permaneceu olhando pela janela.
As gotas escorriam pelo vidro enquanto o sol insistia em atravessar as nuvens.
A cidade seguia seu ritmo.
Pessoas caminhavam pelas calçadas.
Crianças brincavam nas praças.
A vida continuava.
Ao cruzar a Ponte JK, Miguel observou o reflexo da água lá embaixo.
Sorriu discretamente.
Algumas cicatrizes nunca desaparecem.
Mas aprendem a deixar de doer.
O carro seguiu viagem.
E, em algum lugar da memória de Miguel, uma pequena casa de três cômodos permanecia intacta.
Com um violão tocando na sala.
Um periquito verde cantando na varanda.
Um cachorro correndo pelo quintal.
E uma família inteira reunida, acreditando que estava segura.
Na memória dele...
O vento jamais conseguiu entrar.
Fim.

FAMÍLIA RODRIGUES DEPOIS...




Ohhhh meu amigo, que história! Impossível não se emocionar!
ResponderExcluirObrigado, meu amigo. Fico feliz que tenha gostado.
ExcluirGeeente, que conto lindo! Você preparou muito bem o terreno pra a hora da destruição ter um contexto mais emocionante. Uma tristeza em relação às perdas. Gostei muito de sua escrita aqui :)
ResponderExcluirObrigado, minha amiga. Que bom que gostou, beijos!
ExcluirEmocionante. Traz a família na sua mais pura essência. Os traumas que todos enfrentam. As “tempestades” da vida que são muitas: saúde, finanças, sobrevivência. Um arco bem elaborado sobre resistência. O vento que não pode levar o amor, o carinho e o aconchego familiar. Parabéns pelo conto.
ResponderExcluirAssim é, amigo. A maior saudade é que antes as nossas famílias não tinham muito, mas ao mesmo tempo tinham tudo. Talvez essa seja a grande lição de Fúria dos Ventos.
ExcluirAssim é, amigo. A maior saudade é que antes as nossas famílias não tinham muito, mas ao mesmo tempo tinham tudo. Talvez essa seja a grande lição de Fúria dos Ventos.
ResponderExcluir